Filipe Quelhas (AC Portalegre / UTSM) classificou-se em 21.º entre 101 finalizadores nos 68 Km do UTDP realizado no domingo (9) centrado em Cinfãaes. Foi a estreia do Filipe numa +50 Km e as impressões, contadas na primeira pessoa, foram as seguintes: ”

Depois de correr algumas provas de 50 km, comecei a pensar em fazer uma prova com distância maior, para testar e desafiar a máquina. Já tinha lido e pesquisado sobre esta prova, estava na lista de provas onde queria correr, quando vi a data e a distância, encaixava com o que tinha previsto para esta altura. A decisão de fazer a prova não foi imediata, a distância (50 + 18!!!), mês de Julho (muito calor), estarei com treino e estaleca suficiente, eram os factores que me faziam hesitar, no entanto, a vontade enorme em ir acabou por prevalecer, na última noite antes de entrar no último período de inscrições, resolvi efectuar a inscrição.

Como a prova era no domingo e a partida era às 6h30, fomos para Cinfães no sábado, aproveitamos para passear e relaxar antes da prova, chegamos e fomos ter com o dono da casa onde iríamos ficar, que logo nos apresentou várias sugestões para comer e para aproveitar a tarde, almoço junto ao rio no Porto Antigo, que maravilha, visita às Caldas de Aregos e terminámos a tomar banho no rio Bestança, segundo o nosso “guia turístico” o rio mais limpo da Europa, no local onde iria ser o último abastecimento da prova, jantar em Cinfães, preparar equipamento e cama.

Chegamos com tempo, bebo cafezito e vou para o alinhamento, nevoeiro cerrado que seria companheiro durante grande parte da prova, alguns momentos de conversa, aparece sempre alguém com quem já corremos noutro lado, partida e lá vamos nós.

Começamos a subir, sigo a bom ritmo, primeiro km sou 5º, sei que vai ser sol de pouca dura, mas mantenho a cadência e a coisa vai, quase sempre a subir (D+: 950m), a malta vai trocando de lugares entre si, chega o 1º abastecimento, passo em décimo, paragem curtinha, bebo água e continuo, até ao segundo abastecimento quase sempre a descer, a bom ritmo quase sempre sozinho, mas ouvia malta atrás, no 2º abastecimento como qualquer coisa, bebo bem e encho as garrafas, os dois atletas que vinham atrás saem antes de mim, logo a seguir ao parque aparece ribeiro para preparar os pés para o que iria aparecer, correr dentro do rio cheio de pedras, ia com cuidado para não escorregar e chega Caracol, passou por mim e lá foi ele, mantive o cuidado durante os largos metros dentro de água, termina o rio e logo a seguir temos nova subida (D+: 917m), tomo gel e lá vou eu à caça do Caracol, mais à frente lá está ele, chego perto, sigo a bom ritmo por entre árvores, rochas, ribeiro, ele fica para trás, como já não trazia muita água bebo dois copos de água do ribeiro, acaba a vegetação e aparecem trilhos com pedra e as vaquitas, por vezes olhava para trás para ver se ele vinha perto mas o nevoeiro não permitia, chega o 3º abastecimento, água na garrafa e vou comendo, coloco na mochila e não encontro a outra, não está pousada, será que caiu, entretanto chega o Caracol que diz que não viu nada caído, sai antes de mim, saio logo a seguir e ao apalpar a mochila lá estava ela, completamente vazia por baixo da que entretanto tinha colocado, volto atrás para encher e volto ao trilho, a seguir a única parte que não gostei no percurso, descida cheia de pedras, que malha para as pernas, chega ao fim que alivio, subida até ao abastecimento de S. Pedro (40km), chego sozinho com o estômago meio embrulhado, salta à vista, monte de gelados, Magnum, Corneto e mais uns quantos, que luxo, olho para eles mas passo à frente e vou à Coca-Cola para ver se a coisa melhorava.

Saio sozinho, a andar de copo na mão e algumas batatas fritas, melhora um bocadito e começo a correr, a ritmo mais lento, aparece atleta que se mantém sempre atrás, quase sempre a descer, vou aumentando o ritmo e o outo atleta fica para trás, chego ao abastecimento e lá está a menina á minha espera, por esta altura era 13º, bebo água, tento comer qualquer coisa, mas veio vómito, ui isto não está bom, coca-cola para tentar dar a volta ao estômago, chega o atleta que vinha atrás e sai antes de mim, não sei se passou mais algum, saio a correr, 5,5 km até ao próximo abastecimento, os vómitos mantém-se e a má disposição começa a aumentar, olho para o relógio e aos 50 kms, ia com 6h35, 10/15 min acima dos melhores tempos que fiz nos 50 km, aparece trilho a contornar rochas enormes para logo a seguir subir até ao abastecimento dos 52,5 km, chego ao abastecimento, olho para a mesa e dou meia volta, encho só o copo de água e lá vou eu a andar, tento correr, mas a vela tinha encharcado, continuo com o estômago todo embrulhado, vontade de vomitar, cada vez que bebia água vinham os vómitos, 12km até ao último abastecimento, lá tentava correr, mas não estava fácil, percurso fantástico, vegetação com fartura, rochas para atravessar, outra vez dentro do rio, lavo a cara e rego a cabeça, na esperança que fosse o remédio que necessitava, não foi, subida até à estrada, 12 kms quase sempre a andar, desço a correr e aparece a Joana no fundo da descida, finalmente chega o ultimo abastecimento.

Como dois pedaços de melancia e saio para a subida final, alguns metros, paro, mãos nos joelhos e virou, que alivio, abençoada melancia, só foi pena o barco virar tão tarde, vem o pessoal do apoio médico e da organização, “estás bem”, ao que respondo, “mais aliviado”, o Paulo Machado da organização diz que vai comigo, começa a subida e sinto-me mais aliviado, a andar, mas a um ritmo que momentos antes não imaginava conseguir, mais à frente o Paulo diz-me para ir que ele ia abrandar, disse que tinha dormido 3h das últimas duas noites, no entanto, decidiu ir comigo na subida, que atitude, quase a chegar, aparece atleta do ultra e vamos os dois juntos até à meta, espero pelo Paulo, agradeço a ajuda e o gesto e vou-me deitar na relva, nunca tinha passado tão mal numa prova, mas fica a experiência para outras andanças.

Percurso fabuloso, paisagens magnificas, com muita água, ideal para a época em que se realiza, zonas com trilhos muito técnicos, sem paredes mas com muito desnível, para o ano voltarei com certeza!!!.

Agora venham as provas do nacional de trail.”

Filipe Quelhas UTDP 2017b
Filipe Quelhas abordou com sucesso a sua primeira “+ de 50”

Em Andorra Fernando Alvez Barrero não conseguiu alcançar o seu objectivo de terminar a Ronda del Cims (170 Km com um d+ 13500 m), uma dura volta ao principado de Andorra. Para além da dimensão do desafio as condições atmosféricas extremamente adversas levaram à decisão do abandono. Ainda assim esta participação rendeu um total de 93 Km e D+ 9000 m. Na subida ao Pico Negre em que a corrida chegou a estar parada pela Organização FAB tomou a decisão e comunicou-a na sua página do Facebook:

Bueno chicos, gracias por todo.He salido después de la neutralización , he llegado al refugio y lo he dejado, me he vuelto andando a la base del puerto.Para mi es un fracaso absoluto. Debo ser honesto, iba ya tocado físicamente y sobre todo psíquicamente, y todo se ha juntado. Ahora le dedicaré unos días a la familia para conocer Andorra, despues haré una crónica, necesito hacerla para aprender de esto. Os quiero.

Parabéns a ambos pela determinação em se enfrentarem com tão estimulantes desafios.

barrero transvulcania
Fernando Álvez Barrero
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