Hélder Melo conta-nos como foi …

… a sua primeira meia-maratona! E inicia mais uma secção no nosso blogue, com relatos na primeira pessoa. O Hélder é um jovem enfermeiro radicado na nossa cidade e um dos mais entusiastas e avisados elementos da alcateia. Procura conhecer o terreno que pisa e dá-nos a conhecer a sua experiência. Muito interessante. Mais um Murakami no clube. Leiam-no aqui em primeira mão:

“A minha primeira Meia Maratona

Albuquerque, província de Badajoz, Estremadura, Espanha, 3 de Abril de 2011

Vou em esforço… Começo a ultrapassar esse grupo de corredores, provavelmente todos espanhóis… Eles não se importam muito com isso, provavelmente pensam “O que está este a fazer? A lutar pelos 100 primeiros?”… Mas eu continuo, ultrapasso um, dois, cinco, dez ou mais no último km… E mesmo nos últimos metros, na última subida ultrapasso mais um e dou o meu máximo para cortar a meta em 1h38’48’’ e sentir que dei o meu máximo…

            Mas comecemos pelo princípio.

            Decidi-me e propus-me a correr uma Meia Maratona neste início de 2011. Olhei para o calendário das provas e saltou-me logo à vista Elvas-Badajoz a 10 de Abril. Preparei um plano de treinos com 9 semanas, pedi que o mister João Carlos fizesse uns ajustes e comecei a pô-lo em prática. Duas semanas antes do grande dia, senti que necessitava de um teste para essa prova e a Meia Maratona de Montanha de Albuquerque uma semana antes afigurava-se como uma boa prova para experimentar a distância com calma e aproveitar também para me treinar a nível mental para os 21,097km.

            Sabia que havia pessoal do clube que ia a essa prova e lá me inscrevi.

            O treino mais longo que tinha feito foram 17km… Desta vez eram só mais 4…

            Nos dias anteriores à prova comecei a pensar numa estratégia para a prova… Não é que tivesse grandes ambições em termos de tempos, mas queria ter um objectivo no qual me pudesse focar durante a prova, nem que fosse para me motivar nos momentos mais difíceis…

            O meu principal objectivo era chegar ao fim, logo não poderia partir com muita euforia, tinha que partir com calma… Recentemente tinha feito um tempo a rondar os 45’ aos 10km. Pelo que tinha lido, com uma marca destas aos 10km, poderia apontar para 1h45’ na Meia Maratona e foi o que fiz. Propus-me a terminar a prova dentro da 1h45’.

            No dia da prova lá nos concentrámos no sítio do costume, junto à pastelaria Oliveirinha. Enquanto uns tomam café, outros conversam, trocam-se impressões e reúne-se a alcateia completa. E aí vai o ACP em direcção a Albuquerque. Pelo caminho ainda parámos na área de serviço à entrada de Espanha na fronteira dos Galegos e seguimos novamente viagem.

            Avista-se Albuquerque, uma vila com um Castelo no centro, rodeada de planícies, montes e vales à espera de serem percorridos pelos cerca de 270 inscritos na prova.

            A partida e chegada da prova eram junto ao Hotel de Turismo Rural Los Cantos que ficava afastado da vila uns 9km. Foi aí que comecei a perceber mais ou menos como seria o percurso. Partiríamos do Hotel em direcção a Albuquerque por estrada, passaríamos pelo centro da vila e iríamos apanhar um trilho e fazer o percurso de regresso ao Hotel por terra à excepção dos últimos 4km.

            Lá chegamos ao Hotel, estacionamos os carros e começamos a fazer o reconhecimento do sítio. Era um Hotel Rural, com uma espécie de bungalows espalhados por uma espécie de quinta. Levantámos os dorsais e equipámo-nos. Meti à boca a última bucha antes da partida e os últimos goles de água. Abasteci-me com umas doses de mel, uma barra de cereais e ainda levei na mão uma dose de fruta passada.

            Começou a aproximar-se a hora, lá nos fomos dirigindo para a zona da partida em ritmo de aquecimento. Tiradas as fotos da praxe e estávamos prontos para o tiro. Surpreendentemente encontrávamo-nos quase na linha da partida, porque tínhamos sido dos primeiros a chegar e já se juntavam atrás de nós os restantes participantes, tantos que eu nem sabia de onde tinha aquela gente toda aparecido…

            Cronómetro a zeros e lá vamos nós.

            Arranquei nas calmas, tentei encontrar o meu ritmo e não ir junto com ninguém. Os primeiros 3 km eram planos e só a partir daí começava a subir. Fiz o primeiro km em 4’47, dentro da média esperada, que seriam os 5’/km. Ao 3º km havia o primeiro abastecimento, um bocado cedo pensei eu… Mas como tínhamos a subida logo a seguir, até estava bem colocado. Agarrei uma garrafa de água, dei uns goles e larguei-a.

E lá começamos a subir. Foram 3km de subida, mas sinceramente, nem dei muito por ela, nem me custou muito, talvez por ser ainda no início, ainda estava fresco. Passei aos 5km com 24’26’’, dentro do previsto. Nesta altura comecei a reparar que as placas dos km apareciam antes do meu Garmin dar o aviso de km, por isso vi logo que no final provavelmente não iria chegar nem aos 21km no Garmin.

Continuamos pelo alcatrão até chegar à vila de Albuquerque, onde nos esperavam os populares que apoiavam todos os corredores com palmas e gritos de “Animo! Animo!”. Na vila mais um abastecimento e chegamos ao ponto de retorno. Passadas umas centenas de metros entramos na terra batida e aí tento juntar-me a um grupo de 8 ou 10 corredores que iam à minha frente. Até aqui não me tinha preocupado muito em seguir alguém ou ir nalgum grupo, porque ia bem, fresco e não queria abusar muito. Mas quando entrei na terra batida sabia que ainda haviam umas subidas até ao 14ºkm, por isso a minha ideia foi juntar-me a um grupo para não ter que fazer as subidas todas sozinho. Forcei um bocadinho e consegui colar-me a esse grupo onde íamos todos mais ou menos em fila indiana a tentar escolher o melhor caminho. Como tenho alguma facilidade em subir, ainda ultrapassei alguns e cheguei ao final das subidas mais ou menos a meio do grupo.

Mais um abastecimento no final das subidas e preparávamo-nos para descer até ao alcatrão novamente para fazer os últimos 4km em alcatrão. Agarro uma garrafa de água e começo a descer. Pelas minhas contas eram mais 3km a descer em terra batida e depois mais 4km planos em alcatrão. Mal começo a descida começam a dar-me umas dores enormes nas costas na zona dos rins. Eu nunca gostei muito de descer e ainda para mais com aquelas dores não estava a ser nada fácil. Tanto que na descida fui ultrapassado por uns 7 ou 8 corredores que iam com muito mais à vontade que eu. Lá me fui arrastando pela descida até que vejo que estava a chegar ao alcatrão. Agarrei na minha dose de fruta passada, meti aquilo tudo à boca e preparei-me para os últimos 4km.

Ao entrar no alcatrão mais um abastecimento e no terreno plano as dores tinham desaparecido. Comecei então a tentar acelerar o ritmo. Avisto um ACP em ritmo mais lento à minha frente. Era o João Farinha, visivelmente em dificuldades. Era um joelho que não queria continuar, mas mesmo assim levou-o até final. Dou-lhe força e lá continuo eu.

Tento concentrar-me e acelerar o ritmo para tentar alcançar aquele pessoal que me tinha ultrapassado na descida. Agora era mais ou menos plano. Meto na cabeça que tinha que os apanhar e faço dois ou três km a correr sozinho atrás do prejuízo. Quando avisto a placa do 20º km fui buscar aquelas forças que estavam ainda guardadas e começo numa espécie de sprint.

Vou em esforço… Começo a ultrapassar esse grupo de corredores, provavelmente todos espanhóis… Eles não se importam muito com isso, provavelmente pensam “O que está este a fazer? A lutar pelos 100 primeiros?”… Mas eu continuo, ultrapasso um, dois, cinco, dez ou mais no último km… E mesmo nos últimos metros, na última subida ultrapasso mais um e dou o meu máximo para cortar a meta em 1h38’48’’ e sentir que dei o meu máximo…

Depois da meta recebi o saquinho com os brindes e colocaram-me uma medalha ao peito. Passam-me um leitor de códigos de barras pelo meu peitoral e uma senhora logo a seguir dá-me um papelinho com o meu tempo, posição na geral, na categoria e por sexo.

Fomos ao banho, que era numa tenda montada pelo exército, com uns quantos chuveiros e cerca de 3 minutos para tomar o banho, era mesmo a despachar. Depois fomos apanhar o bocadillo, que era uma grande sandes de presunto e a bebida.

Fomos depois assistir à entrega dos prémios e bater palmas aos ACP’s que foram ao pódio.

 

5km – 24’26’’

10km – 48’44’’

15km – 1h13’07’’

20km – 1h35’47’’

20,670km – 1h38’42 (tempos e distâncias do Garmin)

 

Acabei por conseguir atingir os meus objectivos que eram terminar a prova e conseguir um tempo dentro de 1h45’.”

Hélder Melo

2 thoughts on “Hélder Melo conta-nos como foi …

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  1. Muito bem Sr. enfermeiro.

    Belo relato de uma prova que espero um dia vir a fazer. De qualquer forma, nalgumas passagens do texto, revi-me no teu esforço e na tua coragem. Um abraço e já estamos à espera do relato do trail de Abrantes.

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  2. Sim senhor!… Temos Murakami!

    Parabéns pelo relato da prova. Revi-me quase por inteiro no teu relato… Apenas com a diferença que as minhas dores foram logo a partir do 4º Km (início da corrida) e só terminaram no percurso em terra batida por volta dos 12 km. 8 Km em esforço. IRRA!

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